sábado, 30 de março de 2013

Tentar voar...

Subir essa torre
descobrir a sensação das alturas
tentar voar
sem asas
pensar em suicídio
(que se suicide o desespero)
abrir os olhos
ver em volta
descer incerta
numa incerteza qualquer
destino
não será ele
mais fatal
que a maternidade
da luz do sol?


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


 


terça-feira, 26 de março de 2013

Música da memória...

Da espuma
as bolhas guardadas
sequelas inocentes

a sede da palavra certa
incendeia o amor incrédulo
esse eterno olhar
que se queima disperso
num manifesto vertiginoso
em que o tempo marcado
chora a música da memória
e
desce aos infernos
embalada de esquecimento...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

 

sábado, 23 de março de 2013

Só me lembra palavras...

São raros os momentos que matam a sede
e sabem evitar ainda diálogos irados de vento
e assim uma ponte apenas ponte
só me lembra despedida e fico sempre comovida
por ficar deste lado indiferente ao tempo
e assim uma fonte apenas fonte
só me lembra palavras
e vêm os acessos de saudade
indiferente e fabulosa
e às vezes confundo tudo e choro
como se os olhos fossem duas granadas
que não se cansam de explodir sem direcção
sem intenção
mas com uma certeza
beijar o chão depois de o despir

Ana Negrão Ferreira

Divagações Nocturnas


quinta-feira, 21 de março de 2013

Sei no entanto...

O que não é livre não é belo
e é bela a poesia
eu

chego a não saber se prendo a poesia ao meu mundo
se a obrigo contrafeita
a suportar o corpo das minhas palavras
ou se pelo o contrário
é ela quem me escraviza aos seus caprichos
sei no entanto
que existo eu e exste a poesia
só não sei ao certo qual de nós é bela
porque uma de nós não é livre...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Ñocturnas

 

segunda-feira, 18 de março de 2013

Tão simples...

A poesia é tão simples
como implodir a nossa alma
é tão simples como fazer amor vestido
desde manhã até ao dia que nasce para morrer
e o amor é tão simples
como juntar dois corpos quaisquer
no silêncio de um enigma
é tão simples como ser um poeta nu
desde o preconceito
até á revolta
que nos pariu pessoas...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

sábado, 16 de março de 2013

Mergulho no ser...

Cinco minutos não chegam
nem para nascer amar
nem para crescer lutar

nem para viver vencer
mas em cinco minutos
podemos rebentar em sangue
destruir o mundo simplesmente
toda a vida desaparecer
do choro

as palavras que me apertam na garganta
porque eu estou mais presa
que a voz afónica aflita
asfixiada de feto
eu

que nem uma palavra serei
mergulho no ser
cujas dúvidas vão tecendo...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

sexta-feira, 15 de março de 2013

Eleitos perfumados...

Até que o mundo desesperado
se reverta

construo mais uma teia
sendo no fim
tudo o que sou
vanguarda dos sonhos
eleitos perfumados
perscrutando toques
que me surpreendem
a fazer do amor
o tacto imaginado em mim...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

 


quarta-feira, 13 de março de 2013

Muito longe...

Só quando a noite amanhece
é que eu compreendo como fico cega
nas manhãs do dia
porque a noite é bela
é o luar quem me enche de beijos
com mil desejos de acordar
e ficar órfã de tudo
mas com um sonho grande
que começa no olhar
muito longe
na pátria das gaivotas ao sol do nevoeiro
mas já o sol me queima
como se eu fosse uma exilada
nascida num país de vampiros

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


segunda-feira, 11 de março de 2013

Navegam ao acordar...

Conta tu mesmo aqui na praia
de peito aberto ao vento
de garganta afinada na maré
quantas incertezas navegam ao acordar
quantas nuvens escuras escurecem o teu cais
quantos barcos sobram nesse mar sem nome
que margina a tua existência
sem princípio nem fim...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


sexta-feira, 8 de março de 2013

Corpo quente...

...faço-te amor
e amor me sinto
corpo quente
que estremece no meu leito

...encho a noite de música
no escuro

beijo cantando..


 

Ana Negrão Ferreira.
Divagações Nocturnas


 

Infinito...


 

terça-feira, 5 de março de 2013

Em sal e Rochas...

Conta tu mesmo
sem medo nem vergonha
quantos fantasmas te assustam
as luas mortas sobre os mortos esquecidos
em sal e rochas
Conta tu mesmo
quantas marés tem o desespero
nas sombras negras do teu cais
e quantas preces quantos ais
deitados e afogados em vão
ao mar e à morte em solidão
Conta tu mesmo
como um velho lobo do mar
o que houver para contar
antes que morras de fome
e esquecido no universo de palavras 
que escolheste como fim ...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas