quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Estranhos de Passagem...

É urgente que eu viva o hoje
que seja alma com o desejo atento

lendário
justificado
quente
desta vida estranha,
ontem quando me cruzei
com os habitantes da destruição
e as ruínas da mansão
arrisquei-me a ser no fim
tudo o que somos

estranhos de passagem
ignorante falta de poesia
que traziam nos mastros e velas
derrubados em tanto mar
talvez
talvez venha um amanhã...
Ai!
Desse que não conheço!


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Vertigem...

Nasce uma flor
regam-na
pisam-na
arrancam-na
ausência desintegrada
esse inferno vazio
inocência amordaçada
estradas
o pó germinado
medo
loucura
entro por toda a parte
desço aos céus
vertigem
fecho os olhos...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Nem Luz de Velas...

Escasseia
o doce aconchego dos lares
a ternura súbita dos namorados
escasseia
o livro que se escreve
inflamado de certezas
amanhã talvez
não hajam galos nem despertadores
nem pátios nem guitarras
nem luz de velas
amanhã talvez
o mundo pare
talvez só hajam filas de magrinhos
jovens á procura de procurar
somos a ponte do lado de lá
e a fonte do lado de cá
existe medo de mais
e o céu já esgotou os seus sinais...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

E na desordem...

Os guardas do caminho
são corvos morcegos abutres
que picam, assustam, devoram
e guardam
nós
como qualquer ser mutilado
corremos assustados devorados picados
guardados
e na desordem
procuramos uma vacina um antídoto
que acalme o nosso espanto
que acalme o nosso medo
que acalme até depois o nojo
que os guardas do caminho
fizeram que tivessemos de nós
o fim da história é sempre o mesmo:
nós
quase sempre ateus
acabamos a cantar as tais aleluias...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Escrita de sangue...

Tudo seria mais simples
se a escrita de sangue que usas nos olhos
pudesse comover-me como pensas que comove

mas os algarismos da tua filosofia estranha
talvez tão estranha como a minha e a dos outros
acabam sempre e só por ser
lamentavelmente os cifrões da tua sobrevivência
estranha filosofia essa a tua
de te renderes à evidência de não querer ser mais
do que o fruto proibido que desvela revela
a ingénua inocência de quem
por fome de sexo ou de suicídio momentâneo
te vai pagando o caixão que hás-de vestir
quando já só tiveres um preço
e nada já para vender...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

 


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Gérmen de Pó...

Porque choras menino de mimos
sem carinho nem ternura?
Porque choras gérmen de pó
branca ave, teimosa e ridícula?
Porque choras reflexo de luz
imagem furtada da natureza?

Porque choras moribunda chama
sem inaugurações nem metas para atingir
sem experimentares rasgar os olhos
para o sol nascente,
tragam-me mas é o caminho
certo, longo e sinalizado
ou uma criança com duas pétalas vermelhas
insuportavelmente belas e odorosas
ou um beijo puro branco
que sobe no meu rosto
como um sorriso de esperança...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Coroa e rainha ao mesmo tempo...

Tanto ou nada me deram
esses jogos reflexos
que me faltou sempre alguma coisa
lendária justificada
quente desta vida estranha
e quando ontem me dei a conhecer
as palavras suaram impróprias no gelo
embora soubesse que depois escreveria
como se fosse o bobo da corte
coroa e rainha ao mesmo tempo,
mas será que existe alguém capaz de me dizer
em que rua mora essa formosa puta
a quem eu sempre chamei de VIDA?


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas