quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Talvez a melhor...

Somos todos suicidas
para bem viver temos de matar
uma parte de nós, talvez a melhor
que é o espírito
para mal viver temos de matar
outra parte de nós, talvez a melhor
que é o corpo
se por outro lado não gostamos
ou não queremos
viver só com metade de nós
temos de matar o corpo e o espírito
então
somos ou não todos suicidas?

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Palavras densas de luz...

É inadiável interromper o acto de sofrer
tirar o credo permanente da boca desta gente
e empenhá-la de fé
com palavras densas de luz
é necessário não impedir
os analfabetos de aprenderem
desenterrar o acto do saber
chamam-me completamente inútil
porque crio apenas
talvez
eu não mais que uma mera artista
ou uma mulher
ou um ser no meio da espécie...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Descerra um outro quadro...

A noite está próxima
descerra um outro quadro
um quadro antigo
pendurado há milénios neste mundo:
o medo de o amor acabar em fraude
ou uma guerra nuclear
poder apagar para sempre dos dicionários
palavras como
vida fé esperança pessoas
só pessoas
atingidos pelo luar nos comovemos
e os astros embelezados
dão corpo e voz à minha essência

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

sábado, 24 de novembro de 2012

Ficar orfã de tudo...

Só quando a noite amanhece
é que eu compreendo como fico cega
nas manhãs do dia
porque a noite...é que é bela
é o luar quem me enche de beijos
com mil desejos de acordar 
e ficar orfã de tudo
mas com um sonho grande
que começa no olhar
muito longe 
na pátria das gaivotas ao sol do nevoeiro
mas já o sol me queima
como seu fosse uma exilada
nascida num país de vampiros

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Sendo no fim tudo o que sou...

Até que o mundo desesperado
se reverta
construo mais uma teia
sendo no fim
tudo o que sou
vanguarda dos sonhos
eleitos perfumados
perscrutando toques
que me surpreendem
a fazer do amor
o tacto imaginado em mim...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Um quadro é um esquema leviano...

O céu é o azul da primavera
os campos em baixo são as flores
há rosas
e o canto do quadro é um rio de romances
que se vão esgotando por esses mares supostos
cujos sais ele tanto inveja
nas lacunas do papel há crianças
e o calor do verão dão desejos
um quadro é um esquema leviano,
as mais variadas espécies de cores e alegrias
também aqui não faltam
porque este quadro é o manifesto da inconsciência...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Fazer amor vestido...

A poesia é tão simples
como implodir a nossa alma
tão simples como fazer amor vestido

desde manhã até ao dia que nasce para morrer
e o amor é tão simples
como juntar dois corpos quaisquer
no silêncio de um enigma
é tão simples como ser um poeta nu
desde o preconceito
até à revolta
que nos pariu pessoas...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas








Mentes embaladas de esquecimento...

Aos corpos encantados de verniz
e aos espíritos desiludidos
de já e de fim:

um beijo terno e dorido
ás mentes embaladas de esquecimento
que vivem no palco dos infernais problemas
um beijo terno e dorido
a estes seres singulares
a quem tanta falta faz um alfabeto de ternura
e cujas noites vão tecendo a sua vida
em grandes pedaços
um beijo terno e dorido
a estes seres que o sr. padre
diz serem também filhos de Deus
sobretudo quando os usa também
e que têm os dias tão cheios de gente
que quase sempre são longos
longos de só
a todos eles com amor
um beijo terno 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ascensão em arco-íris...

Tão simples e tão belo
que seria ridículo
as águas dos rios

temerem juntar-se às águas dos mares
e as águas dos mares
temerem a sua ascensão em arco-íris
e o arco-íris temer ser nuvem de vida
e se transformar em águas de rios outra vez
tão simples e tão belo
que seria ridículo nós humanos
temermos o amanhã e o depois
que afinal é apenas
tão diferentemente igual
à sempre vida
mundos no oceano
oceanos no mundo...




Ana Negrão Ferreira 
Divagações Nocturnas


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Desertas de sonhos...

O ser das coisas que são
é sempre um sabor a vida
como o êxtase dos teus olhos
é sempre um sonho
e nem o ser nem o sonho te enganam
mesmo que sejas um sonho ou um ser
talvez um dia te libertes
e mergulhes na vida
ou noutras vidas, ou noutros olhos
e rasgues caminhos
pelas ruas do mundo
desertas de sonhos
e de ti e de mim
e talvez me encontres...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





domingo, 4 de novembro de 2012

Desse fazer amor constante...

Como é tão mais fácil
e doloroso
tão mais sóbrio
deslocar-me pelas ruas das ideias
à velocidade da poesia
desse fazer amor constante 
com tudo e todos
como é tão mais fácil poetar-me
a ter que ser a boneca articulada
que resolve todos os problemas
ao ritmo dos sábios conselhos 
de quem nasce, faz filhos, faz calos
e morrem em paz
numa miragem de Deus
estrelado à noite e com o olhar 
que colhe flores em qualquer estação
que belo é inventar as musas
e elas serem apenas tudo

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Algo indefinido...

Luz excremento porcaria
peregrinação templo além
dores
memórias suaves agudas
tic impulso tac impulso
tempo fim
tap educação
trauma nada
incompleto perdição
vem queda esperança
algo indefinido
caminho vanguarda rectaguarda
semi homem semi fêmea
máquinas avarias
feitos nada
morte vida jogo
contratempos em nós

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas