segunda-feira, 29 de outubro de 2012

À sombra do desejo...

Nesse dia
enfeitámo-nos de orquídeas
declarámo-nos românticos

afastámos o preconceito após as flores
fizemos amor à sombra do desejo
nessa manhã fomos felizes
uma dúvida só
o de não saber o quê
de me quereres tão bem
não sei o teu nome
não conheço a tua história
nem tu a sabes de cor talvez
voltemos de novo à primavera
esqueçamos um pouco mais
o silêncio de um enigma
que reinará depois de nós...




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





domingo, 28 de outubro de 2012

Ser e ter a certeza de mim...

Trago do mundo
rostos de outrora
evaporados banidos
oficialmente desaprovados
não interessa o que pensaram
os sonhos amordaçados
a inocência perdida
vítima presa indefesa
e tenho remorsos
saudades do futuro
ser e ter a certeza de mim
amar e não ser certa de ter
tragam-me uma autoestrada
plana sinalizada
pois eu
ainda aqui estou
exactamente e só
à espera do amanhã
ai desse que não conheço
talvez sejas o caminho
o encontro
do meu lado e do teu
fabuloso inesperado

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sábado, 27 de outubro de 2012

Tempo para preguiçar...

Os estímulos são tudo
a preguiça é uma palavra vazia
um preconceito imbecil
o pecado terrível
para quem nunca
teve tempo para preguiçar
quem não se sente estimulado
não é preguiçoso
será quanto muito um desmotivado
mas quem se sente estimulado
não é diligente
será quanto muito alguém com um ideal
chovam ideais para esta gente toda
e eu direi que Portugal
é ainda um país possível
e direi que a felicidade
é uma conquista facilmente acessível

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A confusa solidão...

Plantei uma árvore a pensar em ti
pessoa sem nome com voz de multidão
fi-la crescer 

para que a visses sem poder
alimentei-a nessa aguda falta
que tens de respirar ar puro
dei-lhe tudo
mais tarde na vida
foste interrogada acerca da minha identidade
nunca ouviras falar de mim
deixa
atrofia esse recordar
esqueçamos a confusa solidão
porque eu prefiro as lágrimas
que me trazem estranhamente
numa realidade mais viva 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas










quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mar sem nome...

Conta tu mesmo quantos barcos sobram no mar
quantas incertezas navegam ao acordar
enquanto as certezas vagueiam de pesadelo em pesadelo
conta tu mesmo como um furacão da vida
quantos afectos por dar
a esse mar sem nome
que margina a tua existência
sem princípio nem fim....

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


















segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Amanhã talvez o mundo pare...

Escasseia o doce aconchego dos lares
a ternura súbita dos namorados
o livro que se escreve inflamado de certezas
amanhã talvez o mundo pare
talvez só hajam filas de magrinhos
jovens à procura de procurar
crianças em busca de fantasias imaginárias
somos a ponte do lado de lá
existe medo demais
e o céu já esgotou os seus sinais

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas






quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Raça identidade cultura...

Corto relações com tudo o que conheço
tudo o que é perfeitamente familiar
a raça identidade cultura
desterro-me livre
nua desamparada
como uma criança selvagem
mas em compensação
estou pronta para renascer
criar algo que tenha a minha marca
em vez de ser obrigada 
a chupar os refrescos
que passam a vida
a tentar vender-me
qual a hora exacta da criação?
em que mês se celebra a verdadeira religião?
qual o dia mundial da cretinice?
breve vago incerto
tudo marcha à velocidade da luz
no entanto tão devagar
que os homens são...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




































terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tentar voar sem asas...

Subir essa torre
descobrir a sensação das alturas
tentar voar 
sem asas
pensar em suicídio
(que se suicide o desespero)
abrir os olhos
ver em volta
descer incerta
numa incerteza qualquer
destino
não será ele 
mais fatal
que a maternidade
da luz do sol?

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



domingo, 14 de outubro de 2012

Encho a noite de música...

Medo esquisito
que só me traz fantasmas
meu corpo assustei-o
enervando ânsias
de difusos pensamentos
anunciando a morte

salvação
medo esquisito
faço-te amor
e amor me sinto
corpo quente
que estremece no meu leito
encho a noite de música
no escuro
beijo cantando..
.




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Guardas do caminho...

Os guardas do caminho
são corvos morcegos abutres
picam assustam devoram
nós
como qualquer mutilado
corremos assustados
na desordem
procuramos uma vacina
que acalme o nosso medo
que acalme até o nojo
que os guardas do caminho
fizeram que tivéssemos
nós
quase sempre ateus
acabamos
a cantar as tais aleluias....

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sentença determinada...

O bem
o mal
vítimas inadiadas
sofrimento
sentença determinada
submundo
tipicamente humano...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Alfabeto da Alma

Não há sabedoria
nem querer
que preencham
as vertentes do acaso
eis porque acho inútil
desprezível
camuflar a criação
e arder incerta
na chuva dos caminhos
a cobardia 
incrédula instalada 
essa cegueira 
permanente
sem socorro...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



































sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Desço aos céus...

Nasce uma flor
regam-na
pisam-na

arrancam-na
ausência desintegrada

esse inferno vazio
inocência amordaçada

estradas
o pó germinado
medo
loucura
entro por toda a parte
desço aos céus
vertigem
fecho os olhos... 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




segunda-feira, 1 de outubro de 2012

E se abra caminho...

Tudo pode acontecer
quando a arte
anda à solta de mão dada

com os inconformáveis furacões
dos sonhos imaginados ao sol
longe do mundo
e se abra caminho
escandalosamente lúcido...




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas