quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Se estas são de vento...

Lágrimas
que significam
se todas elas se podem confundir
fontes em pedaços de mar
nunca se vem a saber
se esta é de vento
ou do saco roto de lágrimas
pensamos não ter terra
mas a natureza é perfeita
vejo o mar como alternativa
mergulhados nós
até ao fundo de nós
acabamos por nos despenhar destruídos
mas como sempre em cada outono
também renascem coisas 
que nunca tinham renascido

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas







domingo, 26 de agosto de 2012

Lendária justificada...

Tanto ou nada me deram
esses jogos reflexos
que me faltou sempre alguma coisa

lendária justificada
quente desta vida estranha
e quando ontem me dei a conhecer
as palavras suaram impróprias no gelo
embora soubesse que depois escreveria
como se fosse o bobo da corte
coroa e rainha ao mesmo tempo,
mas será que existe alguém capaz de me dizer
em que rua mora essa formosa puta
a quem eu sempre chamei de VIDA?



Ana Negrão Ferreira 
Divagações Nocturnas





sábado, 25 de agosto de 2012

De todo o meu conteúdo...

Sou apenas um ponto de passagem
de todo o meu conteúdo
ou de quase tudo

e não sei ao certo o que contenho
porque aquilo que entornei ontem
é sempre diferente
daquilo que hoje entorno
desespero o perfume de paraíso
até à primavera do país das maravilhas
que trago imaginadas em mim
desde a véspera do amanhã
...que amanhã é inverno outra vez...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




terça-feira, 21 de agosto de 2012

Seu renascer eterno...

São os rios sim
quem me traz perplexa

seu eterno devir
seu renascer eterno
e suas águas
sendo no entanto sempre as mesmas
são elas quem nos faz pensar sempre
em renovação eterna
são os rios sim quem me traz perplexa assim

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



domingo, 19 de agosto de 2012

É urgente que eu viva o hoje...

Quem se queima ainda com as línguas da solidão?
Quem acredita ainda nas badaladas do romantismo?
Quem acredita ainda seja no que for?
É urgente que eu viva o hoje
não vá chegar um decreto-lei a dizer
que já foi confirmado o óbito da vida
talvez fosse um erro
eu nascer, o mundo parecer-me existir
eu sofrer, o mundo parecer-me imperfeito
até ao choro convulsivo das palavras
que o planeta se prepara
para não deixar nunca respirar a arte...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

E vacilante recomeço...

Não sei onde estás dita vida
mas sei que te tenho presa em mim
porque tenho passado o tempo
a sonhar-te
a reinventar-te
estás algures acorrentada
a corrente que nos prende
não tem princípio nem fim
e vacilante recomeço
na madrugada de quem trabalha
para este mundo que escolhi como fim
arriscando-me a morrer de fome
por não existirem dicionários
nas vagas luas que navego
como um velho lobo do mar
que desce sempre à melancolia quotidiana...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Em pedaços de mar...

Dissolvidos não somos já nós
em pedaços de mar desconstruídos
tormentosos turbulentos

frémitos largos sem explicação
ignorando as torres que à volta se movem enormes
e as derrubamos
por falta de poesia que trazemos no sangue
por falta da melodia que o sorriso dos cabelos
me trazem nos cavalos que galopam
esta praia entontecida de solidão



Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




terça-feira, 7 de agosto de 2012

Proclamo indispensável...

É importante ver a cidade grande
onde as pessoas correm sempre
como se tivessem um comboio a cada instante
e não se vêem nem bois nem estradas de pó
em vez disso
há muitas latas escritas e pintadas
paradas em movimento pelo ar pelo chão
por falar nisso 
declaro urgente advertir a publicidade ao consumo
de toda a porcaria que sustenta este mundo
que se encontra entalado,
exijo inadiável 
que se institua rapidamente
deixar crescer o povo em paz
e por todos os filhos que existem
proclamo indispensável
a dúvida em tudo e todos
e até na própria dúvida...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





domingo, 5 de agosto de 2012

Desenterrar o acto do saber...

É inadiável interromper o acto de sofrer
tirar o credo permanente da boca desta gente
e empenhá-la de fé com palavras densas de luz
é necessário não impedir os analfabetos de aprenderem
e desenterrar o acto do saber
chamam-me completamente inútil
porque crio apenas
talvez eu não seja mais que uma mera artista
ou uma mulher
ou um ser no meio da espécie...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Prenúncio de obras e restauração...

Está ameaçada de ruína a mansão
e os habitantes com a destruição
será isto prenúncio de obras e restauração?
e se a ruína se chamar morte
e a mansão se chamar eu
e os habitantes vontades
que a própria vida ameaça destruir
será isto prenúncio de mudança de linha
afinal que estação é esta?
ainda por cima tenho de pagar para viajar
e quem é que me paga o conserto...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Que converto em miragens...

A essa estação de sonho espacial
a essa loucura feroz
que não me arrepende,
sim, voei alto demais
não consegui tornear
esses espaços que descerro
que verto nas passagens
as vertigens imaginadas
que converto em miragens
o meu desespero de querer tudo
submergir no universo mergulhar
e gritar todas as palavras até ficar rouca...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas