segunda-feira, 30 de julho de 2012

Quantos fantasmas te assustam...

Conta tu mesmo
sem medo nem vergonha
quantos fantasmas te assustam
sem espaço nem falar
conta tu mesmo
quantas madrugadas sem sol
a saberem a sal,
quantas ausências o teu barco
conserva ainda presas
para morrerem amanhã...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Sem nome nem data de nascimento





domingo, 29 de julho de 2012

Quando virá libertar-me a noite...

E sofro de não saber
quando virá libertar-me a noite
esse dia longo e inconsequente
aquele que mais convém
a quem faz da vida uma farra sem limites
e sem noite
a vida é tão bela e tão feia
como um fruto apetecido devorado
e que há-de ser qualquer coisa
excepto um fruto...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


quinta-feira, 26 de julho de 2012

É agudamente um desejo...

Ser amor em nós é diferente
é sermos nós o amor e mais ninguém
ser amor em nós é agudamente um desejo
de estarmos lado a lado para sempre
construirmos a teia de um sonho mesmo ridículo 
e não termos tudo ao acordar...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ser uma rota incerta...

E assim uma fonte apenas fonte
só me faz lembrar vento e palavras
um tempo fora do tempo
que é o tormento de ter de ignorar
uma ponte apenas ponte
e lágrimas que parecem fontes
e suspiro orgulhosa de imitar o vento
ficando aqui deste lado
a chorar como se fosse fonte
a trair a minha fé
a imitar a loucura
e devido à falta de terra
fui-me aos peixes e salguei-os
difícil tão difícil para mim
ser navio e marinheira
ser uma rota incerta
e também mar
presa ao sal deste universo...



Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Ter fogo nos olhos...

Porque eu prefiro as lágrimas
que o fogo que me faz chorar aos olhos
e saber que os meus olhos 
só se acendiam com os teus olhos
mas cegaram-te...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


sábado, 21 de julho de 2012

Fosse eu uma hipótese de futuro...

Se eu não trouxesse ainda nas mãos
este frio de Janeiro
se eu não trouxesse em mim cicatrizadas
tantas promessas ao devaneio
se não fosse já tão tarde em mim
para amanhecer ou ir ao purgatório
se eu não amasse tanto a primavera
e se em vez de não ser tudo como é
fosse só eu a louca teimosa
fosse eu uma hipótese de futuro
e se o se não existisse
o que escrevo
nem sequer ecoava
e eu seria parida pela morte
e não pelo nascimento
proclamo urgente
nascer de novo...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





sexta-feira, 20 de julho de 2012

O tempo que eu tiver...

Agora o tempo está perdido
e já só tenho tudo por dizer
Ah! Sim!
ainda direi que quando
o tempo que eu tiver
tiver chegado para nascer uma rosa dos ventos
hei-de eu por força ser
eu sou sem sombras, com sombras
maior que o meu minúsculo e cansado corpo
mas o tempo esse
que não pára de correr até
ficar toda nua neste mundo


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





Talvez tão estranha como a minha e a dos outros...

Tudo seria mais simples
se a escrita de sangue que usas nos olhos
pudesse comover-me como pensas que comove
mas os algarismos da tua filosofia estranha
talvez tão estranha como a minha e a dos outros
acabam sempre e só por ser
lamentavelmente os cifrões da tua sobrevivência
estranha filosofia essa a tua
de te renderes à evidência de não querer ser mais
do que o fruto proibido(?) que desvela (revela)
a ingénua inocência de quem
por fome de sexo ou de suicídio momentâneo
te vai pagando o caixão que hás-de vestir
quando já só tiveres um preço
e nada já para vender...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 16 de julho de 2012

Expansão desta esfera complicada de pensar...

Largas mentes congestiono
enervando as ânsias de difusos pensamentos
entretanto espero atenta
a expansão desta esfera complicada de pensar
inscrita nesta dor diversa
mas numa ogiva excitam-se as urgências:
é urgente libertar as congestões
as têmporas-fronteiras rebentar
é urgente esbanjar todas as direcções
e vaguear por toda a parte
tudo aquilo que tenho ganho
em perder o tempo de ganhar
e o tempo que de menos vou ganhando
mas demais o ganha o lento tempo confundido
que a minha história talvez suja vai tecendo...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Jogaram-se jogos de luz e trevas...

Despertam acordados 
raios de sol ridículos
lutam contra a madrugada
demasiado irreal
a madrugada em breve será mãe
o sol em breve pai
e tudo em breve será esquecimento,
mas a madrugada morre
morre de parto
nascem-lhe filhos
e não se fez amor
jogaram-se jogos de luz e trevas
jogaram-se sonhos e pesadelos
chegam outras madrugadas
e nadamos em nada
sem saber nada
e sem saber nadar
afogamos a água
nos nadas que sabemos...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





quarta-feira, 11 de julho de 2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

E atingidos pelo luar nos comovemos...

A noite já está próxima
descerra um outro quadro
um quadro antigo
pendurado há milénios neste mundo:
o medo de o amor acabar em fraude
ou uma guerra nuclear poder
acabar para sempre dos dicionários
palavras como
vida, fé
esperança, pessoas
e atingidos pelo luar 
nos comovemos
mas os astros embelezados 
sempre adivinhos
dão corpo e voz 
à minha essência...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Era da pedra