quinta-feira, 28 de junho de 2012

Deixa-me amar-te e dar-te a mão...

Trago já grandes dúvidas
nos mastros e velas
reumatismo pelo leme
e ainda assim me assalta a tentação
de implorar a quem me jogue nas águas
em busca de purificação com que sonhei nesta vida
como quem acredita 
que amanhã de manhã ao acordar
o mundo será diferente de sempre
e tudo jamais será tão mau
como sempre foi até aqui
afinal, afogar-me não posso
que os meus olhos são marítimos por demais
e o sal, esse nunca o temi
que foi sempre o tempero
da minha solidão... 
deixa-me dar-te a mão, amar-te
até ao sinal da próxima geração


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





E não choram as areias da praia...

Como eu lamento 
não ser como as areias da praia
calcadas pelas marcas
que os barcos trazem do mar
que os barcos levam ao mar
e não choram as areias da praia
desprezíveis insignificantes
que sabem quão inúteis seriam
as suas lágrimas roubadas pelo mar...
...como é tão mais fácil e doloroso
tão mais sóbrio e subtil deslocar-me
pelas ruas das ideias
à velocidade da poesia


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas









Mergulhados na verdade...

As vacas pastam nos campos
calmas, absortas de animalidade
assim vivem certos homens
mergulhados na verdade
e sem nunca perceberem
que mentira e dúvida
é quando batem a porta atrás de si
e saem do seu habitáculo
para debaixo do sol,
e a verdade lá vai ficando
cada vez mais para trás
certos homens
como vacas
absortos pastam verdades e saem


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





quinta-feira, 21 de junho de 2012

São portas adentro de portas...

Caminho meio tonta
e o deserto já parece portas de infinito
o calor que me rói
e a sede que me mina
já parecem portas de uma alucinação
são portas adentro de portas
como tempo adentro de tempo
e contratempo adentro do medo
e corridas e quedas
a confundir-me com esta areia quente
que parece janelas de mar em agosto
e mais à frente
autocarros ao engano
pessoas e cafés
a miragem do dinheiro
mas logo areia outra vez
e répteis e catos
mas sempre areia cada vez mais quente e movediça
quem dera que eu fosse mais um réptil
que vive a sangue frio
o calor da areia deserta


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




Somos um dispositivo lógico...

As máquinas estranhas que nós somos
somos um dispositivo lógico
sabiamente atirado a um mundo ilógico
onde tudo é verdade
até se descobrir que é mentira
e quando imaginamos
que tudo é falso de verdade
construímos mais uma teoria
da razão de ser tudo
e fica tudo resolvido
e mesmo que não fique
calaremos calmamente
a nova incerta certeza
no ilógico copo de vinho
que mais logicamente estiver à nossa mão


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

Ser nuvem de vida...

Tão simples e tão belo 
que seria ridículo
as águas dos rios 
temerem juntar-se às águas dos mares
e as águas dos mares
temerem a sua ascensão em arco-íris 
e o arco-íris temer
ser nuvem de vida
e se transformar em águas de rios outra vez
tão simples e tão belo
que seria ridículo
nós humanos
temermos o amanhã e o depois
que afinal é apenas
tão diferentemente igual
à sempre vida...
...mundos no oceano
oceanos no mundo


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 15 de junho de 2012

Com mil desejos de acordar...

Só quando a noite amanhece
é que eu compreendo como fico cega
nas manhãs do dia
porque a noite é bela
é o luar quem me enche de beijos
com mil desejos de acordar
e ficar órfã de tudo
mas com um sonho grande
que começa no olhar
muito longe
na pátria das gaivotas ao sol do nevoeiro
mas já o sol me queima
como se eu fosse uma exilada
nascida num país de vampiros


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Pedras hirtas de dignidade...

Os críticos são os homens
que por terem criado os fantasmas
não conseguiram dizer as palavras
os críticos são as bocas apodrecidas
de lazer que na hora de serem
pedras hirtas de dignidade
preferem aprender lições de erosão

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Universo de palavras...

Conta tu mesmo
sem medo nem vergonha
quantos fantasmas te assustam
as luas mortas sobre os mortos esquecidos
em sal e rochas
Conta tu mesmo
quantas marés tem o desespero
nas sombras negras do teu cais
e quantas preces quantos ais
deitados e afogados em vão
ao mar e à morte em solidão
Conta tu mesmo
como um velho lobo do mar
o que houver para contar
antes que morras de fome
e esquecido no universo de palavras 
que escolheste como fim 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



quarta-feira, 13 de junho de 2012

Que nos faz brilhar por contraste...

O sol brilha
a lua dorme
tu beijas-me, eu afago-te
tudo é composto de amor
sendo o ódio apenas
o lado negro da vida
que nos faz brilhar por contraste
como brilhamos agora
mortais, mas livres
de qualquer mácula
puros como crianças
e a absorver risadas


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



O corpo das minhas palavras...

O que não é livre não é belo
e é bela a poesia
eu
chego a não saber se prendo
a poesia ao meu mundo
se a obrigo contrafeita a suportar
o corpo das minhas palavras
ou se pelo contrário
é ela quem me escraviza aos seus caprichos
sei no entanto que de certa maneira
existo eu e existe a poesia
só não sei ao certo qual de nós é bela
porque uma de nós não é livre


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



terça-feira, 12 de junho de 2012

Beijar o chão depois de o despir...

São raros os momentos que matam a sede
e sabem evitar ainda diálogos irados de vento
e assim uma ponte apenas ponte
só me lembra despedida e fico sempre comovida
por ficar deste lado indiferente ao tempo
e assim uma fonte apenas fonte
só me lembra palavras
e vêm os acessos de saudade
indiferente e fabulosa
e às vezes confundo tudo e choro
como se os olhos fossem duas granadas
que não se cansam de explodir sem direcção
sem intenção
mas com uma certeza
beijar o chão depois de o despir


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Somos a ponte do lado de lá...

Escasseia
o doce aconchego dos lares
a ternura súbita dos namorados
escasseia
o livro que se escreve 
inflamado de certezas
amanhã talvez
não hajam galos nem despertadores
nem cantinas nem guitarras
nem luz de velas
amanhã talvez
o mundo pare
talvez só hajam filas de magrinhos
jovens à procura de procurar
somos a ponte do lado de lá
e a fonte do lado de cá
existe medo demais
e o céu já esgotou os seus sinais


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Desterra-te livre...

Corta relações com tudo o que conheces
com tudo o que é para ti
perfeitamente familiar
a raça, a identidade, a cultura
desterra-te livre
sentir-te-ás só a princípio
nu, desamparado, uma criança selvagem
mas em compensação
estarás pronto para renascer e criar algo novo
algo que tenha a tua marca
em vez de seres obrigado 
a chupar os refrescos
que os outros passam a vida a tentar vender-te
reconhecer-te-ei facilmente
pois é assim que eu passo a vida
a tentar existir todos os dias
qual a hora exacta do desespero?
em que mês se celebra a criação?
qual o dia mundial da cretinice?
breve, vago, incerto
tudo marcha à velocidade da luz
e no entanto tão devagar 
que os homens são!!


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas






Contratempos em nós...

Luz, excremento, porcaria
peregrinação, templo, além
dores, memórias suaves, memórias agudas
tic impulso, tac impulso
tempo fim, luz princípio
tap educação
trauma nada
incompleto, perdição
daí vem queda esperança
algo indefinido
caminho vanguarda retaguarda
semi homem, semi mulher
disfarce
máquinas avarias
feitos nada
morte
vida 
jogo
contratempos em nós

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



Procurados, achados...

Começando e não obstante
temos sempre nossos
uma área, um dicionário
uma crença qualquer
procurados, achados
perdidos de novo
no meio de uma coisa ténue
suave, salvadora ou não
mas cuja força ninguém sabe entender
cuja resistência ninguém sabe imaginar
tanto mar
tantas marés
correntes da vida

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 8 de junho de 2012

Desígnios





Primatas





Sincronicidade




Não sermos nós todas as coisas!

O mundo está todo roto
mas como só alguns o sabem
muitos caem pelos seus buracos
a que chamam também de ratoeiras...
...é demasiado provável 
a tempestade dos caminhos
mesmo assim
pressinto as coisas, as cores,
desespero as flores
com a beleza da primavera que inventei
pressinto a loucura
pressinto o que sinto
e não consigo esquecer
os dias e as noites que fui
os dias e as noites que serei
AH! Não sermos nós todas as coisas!


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sábado, 2 de junho de 2012