sábado, 22 de dezembro de 2012

Mais tarde na vida...

Plantei uma árvore a pensar em ti
pessoa sem nome com voz de multidão
fi-la crescer 
para que a visses sem poder
alimentei-a nessa aguda falta
que tens de respirar ar puro
dei-lhe tudo
mais tarde na vida
foste interrogada acerca da minha identidade
nunca ouviras falar de mim
deixa
atrofia esse recordar
esqueçamos a confusa solidão...
...eu prefiro as lágrimas
que me trazem estranhamente
numa realidade mais viva...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





domingo, 16 de dezembro de 2012

TRIUNFO



Pedaços bastante largos...

Vivo a entornar-me
e como aquilo que entorno
raramente se sujeita 

à minha vontade
é lógico que é raro
entornar o que quero,
entorno quase sempre
o que está mais perto dos bordos
do recipiente que me contém
e é pelas ruas que vão ficando
em pedaços bastante largos
tudo ou quase tudo
o que apanho entre passagens... 





Ana Negrão Ferreira

Divagações Nocturnas




quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Ao vento e ao mar...

Das baladas que foram infantis ao lado do mundo
na terra do sempre brincando
deslumbram-me os raios
que me trazem pouco a pouco 
de volta aos risos da infância
da candura dos gestos, dos sorrisos
daqueles que só as crianças
sabem erguer indiferentes
ao vento a ao mar
ignorando os castelos
que à sua volta se movem enormes...
 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Um sonho mesmo ridículo...

Ser amor em nós é diferente
é sermos nós o amor e mais ninguém
ser amor em nós é agudamente um desejo

de estarmos lado a lado para sempre
construirmos a teia de um sonho mesmo ridículo
e não termos tudo ao acordar...




Ana Negrão Ferreira 
Divagações Nocturnas








sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sabendo que não há água...

Ter sempre uma gota de água
guardada nas mãos em concha
puras

e nunca ter mágoa
de apagar o sol com ela
nunca ter mágoa de ser caravela
que a água é sempre mais bela
do que o sol que por nós vela
neste vale de lágrimas onde choramos de sede
sabendo que não há água
nas mãos em concha
puras de apagar o sol
uma gota apenas
nas mãos puras...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Talvez a melhor...

Somos todos suicidas
para bem viver temos de matar
uma parte de nós, talvez a melhor
que é o espírito
para mal viver temos de matar
outra parte de nós, talvez a melhor
que é o corpo
se por outro lado não gostamos
ou não queremos
viver só com metade de nós
temos de matar o corpo e o espírito
então
somos ou não todos suicidas?

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Palavras densas de luz...

É inadiável interromper o acto de sofrer
tirar o credo permanente da boca desta gente
e empenhá-la de fé
com palavras densas de luz
é necessário não impedir
os analfabetos de aprenderem
desenterrar o acto do saber
chamam-me completamente inútil
porque crio apenas
talvez
eu não mais que uma mera artista
ou uma mulher
ou um ser no meio da espécie...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Descerra um outro quadro...

A noite está próxima
descerra um outro quadro
um quadro antigo
pendurado há milénios neste mundo:
o medo de o amor acabar em fraude
ou uma guerra nuclear
poder apagar para sempre dos dicionários
palavras como
vida fé esperança pessoas
só pessoas
atingidos pelo luar nos comovemos
e os astros embelezados
dão corpo e voz à minha essência

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

sábado, 24 de novembro de 2012

Ficar orfã de tudo...

Só quando a noite amanhece
é que eu compreendo como fico cega
nas manhãs do dia
porque a noite...é que é bela
é o luar quem me enche de beijos
com mil desejos de acordar 
e ficar orfã de tudo
mas com um sonho grande
que começa no olhar
muito longe 
na pátria das gaivotas ao sol do nevoeiro
mas já o sol me queima
como seu fosse uma exilada
nascida num país de vampiros

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Sendo no fim tudo o que sou...

Até que o mundo desesperado
se reverta
construo mais uma teia
sendo no fim
tudo o que sou
vanguarda dos sonhos
eleitos perfumados
perscrutando toques
que me surpreendem
a fazer do amor
o tacto imaginado em mim...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Um quadro é um esquema leviano...

O céu é o azul da primavera
os campos em baixo são as flores
há rosas
e o canto do quadro é um rio de romances
que se vão esgotando por esses mares supostos
cujos sais ele tanto inveja
nas lacunas do papel há crianças
e o calor do verão dão desejos
um quadro é um esquema leviano,
as mais variadas espécies de cores e alegrias
também aqui não faltam
porque este quadro é o manifesto da inconsciência...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Fazer amor vestido...

A poesia é tão simples
como implodir a nossa alma
tão simples como fazer amor vestido

desde manhã até ao dia que nasce para morrer
e o amor é tão simples
como juntar dois corpos quaisquer
no silêncio de um enigma
é tão simples como ser um poeta nu
desde o preconceito
até à revolta
que nos pariu pessoas...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas








Mentes embaladas de esquecimento...

Aos corpos encantados de verniz
e aos espíritos desiludidos
de já e de fim:

um beijo terno e dorido
ás mentes embaladas de esquecimento
que vivem no palco dos infernais problemas
um beijo terno e dorido
a estes seres singulares
a quem tanta falta faz um alfabeto de ternura
e cujas noites vão tecendo a sua vida
em grandes pedaços
um beijo terno e dorido
a estes seres que o sr. padre
diz serem também filhos de Deus
sobretudo quando os usa também
e que têm os dias tão cheios de gente
que quase sempre são longos
longos de só
a todos eles com amor
um beijo terno 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Ascensão em arco-íris...

Tão simples e tão belo
que seria ridículo
as águas dos rios

temerem juntar-se às águas dos mares
e as águas dos mares
temerem a sua ascensão em arco-íris
e o arco-íris temer ser nuvem de vida
e se transformar em águas de rios outra vez
tão simples e tão belo
que seria ridículo nós humanos
temermos o amanhã e o depois
que afinal é apenas
tão diferentemente igual
à sempre vida
mundos no oceano
oceanos no mundo...




Ana Negrão Ferreira 
Divagações Nocturnas


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Desertas de sonhos...

O ser das coisas que são
é sempre um sabor a vida
como o êxtase dos teus olhos
é sempre um sonho
e nem o ser nem o sonho te enganam
mesmo que sejas um sonho ou um ser
talvez um dia te libertes
e mergulhes na vida
ou noutras vidas, ou noutros olhos
e rasgues caminhos
pelas ruas do mundo
desertas de sonhos
e de ti e de mim
e talvez me encontres...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





domingo, 4 de novembro de 2012

Desse fazer amor constante...

Como é tão mais fácil
e doloroso
tão mais sóbrio
deslocar-me pelas ruas das ideias
à velocidade da poesia
desse fazer amor constante 
com tudo e todos
como é tão mais fácil poetar-me
a ter que ser a boneca articulada
que resolve todos os problemas
ao ritmo dos sábios conselhos 
de quem nasce, faz filhos, faz calos
e morrem em paz
numa miragem de Deus
estrelado à noite e com o olhar 
que colhe flores em qualquer estação
que belo é inventar as musas
e elas serem apenas tudo

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Algo indefinido...

Luz excremento porcaria
peregrinação templo além
dores
memórias suaves agudas
tic impulso tac impulso
tempo fim
tap educação
trauma nada
incompleto perdição
vem queda esperança
algo indefinido
caminho vanguarda rectaguarda
semi homem semi fêmea
máquinas avarias
feitos nada
morte vida jogo
contratempos em nós

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

À sombra do desejo...

Nesse dia
enfeitámo-nos de orquídeas
declarámo-nos românticos

afastámos o preconceito após as flores
fizemos amor à sombra do desejo
nessa manhã fomos felizes
uma dúvida só
o de não saber o quê
de me quereres tão bem
não sei o teu nome
não conheço a tua história
nem tu a sabes de cor talvez
voltemos de novo à primavera
esqueçamos um pouco mais
o silêncio de um enigma
que reinará depois de nós...




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas





domingo, 28 de outubro de 2012

Ser e ter a certeza de mim...

Trago do mundo
rostos de outrora
evaporados banidos
oficialmente desaprovados
não interessa o que pensaram
os sonhos amordaçados
a inocência perdida
vítima presa indefesa
e tenho remorsos
saudades do futuro
ser e ter a certeza de mim
amar e não ser certa de ter
tragam-me uma autoestrada
plana sinalizada
pois eu
ainda aqui estou
exactamente e só
à espera do amanhã
ai desse que não conheço
talvez sejas o caminho
o encontro
do meu lado e do teu
fabuloso inesperado

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sábado, 27 de outubro de 2012

Tempo para preguiçar...

Os estímulos são tudo
a preguiça é uma palavra vazia
um preconceito imbecil
o pecado terrível
para quem nunca
teve tempo para preguiçar
quem não se sente estimulado
não é preguiçoso
será quanto muito um desmotivado
mas quem se sente estimulado
não é diligente
será quanto muito alguém com um ideal
chovam ideais para esta gente toda
e eu direi que Portugal
é ainda um país possível
e direi que a felicidade
é uma conquista facilmente acessível

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A confusa solidão...

Plantei uma árvore a pensar em ti
pessoa sem nome com voz de multidão
fi-la crescer 

para que a visses sem poder
alimentei-a nessa aguda falta
que tens de respirar ar puro
dei-lhe tudo
mais tarde na vida
foste interrogada acerca da minha identidade
nunca ouviras falar de mim
deixa
atrofia esse recordar
esqueçamos a confusa solidão
porque eu prefiro as lágrimas
que me trazem estranhamente
numa realidade mais viva 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas










quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mar sem nome...

Conta tu mesmo quantos barcos sobram no mar
quantas incertezas navegam ao acordar
enquanto as certezas vagueiam de pesadelo em pesadelo
conta tu mesmo como um furacão da vida
quantos afectos por dar
a esse mar sem nome
que margina a tua existência
sem princípio nem fim....

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas


















segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Amanhã talvez o mundo pare...

Escasseia o doce aconchego dos lares
a ternura súbita dos namorados
o livro que se escreve inflamado de certezas
amanhã talvez o mundo pare
talvez só hajam filas de magrinhos
jovens à procura de procurar
crianças em busca de fantasias imaginárias
somos a ponte do lado de lá
existe medo demais
e o céu já esgotou os seus sinais

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas






quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Raça identidade cultura...

Corto relações com tudo o que conheço
tudo o que é perfeitamente familiar
a raça identidade cultura
desterro-me livre
nua desamparada
como uma criança selvagem
mas em compensação
estou pronta para renascer
criar algo que tenha a minha marca
em vez de ser obrigada 
a chupar os refrescos
que passam a vida
a tentar vender-me
qual a hora exacta da criação?
em que mês se celebra a verdadeira religião?
qual o dia mundial da cretinice?
breve vago incerto
tudo marcha à velocidade da luz
no entanto tão devagar
que os homens são...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




































terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tentar voar sem asas...

Subir essa torre
descobrir a sensação das alturas
tentar voar 
sem asas
pensar em suicídio
(que se suicide o desespero)
abrir os olhos
ver em volta
descer incerta
numa incerteza qualquer
destino
não será ele 
mais fatal
que a maternidade
da luz do sol?

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



domingo, 14 de outubro de 2012

Encho a noite de música...

Medo esquisito
que só me traz fantasmas
meu corpo assustei-o
enervando ânsias
de difusos pensamentos
anunciando a morte

salvação
medo esquisito
faço-te amor
e amor me sinto
corpo quente
que estremece no meu leito
encho a noite de música
no escuro
beijo cantando..
.




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Guardas do caminho...

Os guardas do caminho
são corvos morcegos abutres
picam assustam devoram
nós
como qualquer mutilado
corremos assustados
na desordem
procuramos uma vacina
que acalme o nosso medo
que acalme até o nojo
que os guardas do caminho
fizeram que tivéssemos
nós
quase sempre ateus
acabamos
a cantar as tais aleluias....

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Sentença determinada...

O bem
o mal
vítimas inadiadas
sofrimento
sentença determinada
submundo
tipicamente humano...

Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Alfabeto da Alma

Não há sabedoria
nem querer
que preencham
as vertentes do acaso
eis porque acho inútil
desprezível
camuflar a criação
e arder incerta
na chuva dos caminhos
a cobardia 
incrédula instalada 
essa cegueira 
permanente
sem socorro...


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas



































sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Desço aos céus...

Nasce uma flor
regam-na
pisam-na

arrancam-na
ausência desintegrada

esse inferno vazio
inocência amordaçada

estradas
o pó germinado
medo
loucura
entro por toda a parte
desço aos céus
vertigem
fecho os olhos... 


Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas




segunda-feira, 1 de outubro de 2012

E se abra caminho...

Tudo pode acontecer
quando a arte
anda à solta de mão dada

com os inconformáveis furacões
dos sonhos imaginados ao sol
longe do mundo
e se abra caminho
escandalosamente lúcido...




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas








domingo, 30 de setembro de 2012

Portas de uma alucinação...

Caminho meia tonta
o deserto já parece
portas de infinito

de uma alucinação
medo corridas quedas
a confundir-me com esta areia quente
pessoas répteis
a miragem do dinheiro
seca movediça
quem dera que eu fosse um réptil
que vive a sangue frio
o calor da areia deserta
esta sede me mina...




Ana Negrão Ferreira
Divagações Nocturnas